11 setembro 2025

A Pedagogia Híbrida, Pós-Humanista e o Projeto ELABORA (11/9/2025)

Convergências Teóricas e Práticas em IA Dialógica Educacional

Paulo Brazão em trabalho dialógico com Manus AI


Resumo

Este relatório apresenta uma análise crítica do post "PERSPETIVA DIALÓGICA DA IA GENERATIVA NA EDUCAÇÃO: PEDAGOGIA HÍBRIDA PÓS-HUMANISTA EM AMBIENTES DE APRENDIZAGEM EMERGENTES" [1], publicado no blog IA Dialógica por Paulo Brazão em 9 de setembro de 2025, estabelecendo conexões conceptuais e metodológicas com o Projeto ELABORA. A análise demonstra como os princípios da pedagogia híbrida pós-humanista se alinham com os objetivos e metodologias do projeto ELABORA, evidenciando a pertinência e relevância deste projeto de investigação no panorama atual da IA educacional.

 Esta análise revela convergências significativas entre as perspetivas teóricas apresentadas no post e os fundamentos do projeto ELABORA, particularmente no que se refere aos processos dialógicos de construção de conhecimento mediado por IA, à crítica dos modelos tecno-solucionistas e à necessidade de abordagens educacionais que integrem dimensões éticas, políticas e socioculturais.

Palavras-chave: IA dialógica educacional, pedagogia híbrida pós-humanista, processos dialógicos, construção de conhecimento, investigação-ação, análise crítica triangulada, sustentabilidade educacional, justiça epistémica

 

1. Introdução

A emergência da inteligência artificial generativa no campo educacional tem suscitado debates intensos sobre as suas implicações pedagógicas, epistemológicas e ontológicas. O post analisado, da autoria de Paulo Brazão em colaboração dialógica com Manus AI, representa uma contribuição significativa para este debate ao propor uma análise crítica triangulada dos desenvolvimentos emergentes em IA dialógica educacional através das lentes da pedagogia híbrida pós-humanista [1].

 

Esta análise ganha particular relevância quando contextualizada no âmbito do Projeto ELABORA, uma investigação de pós-doutoramento que se propõe "caracterizar os processos dialógicos de construção de conhecimento mediado por IA, em contexto de aprendizagem formal, de estudantes do Ensino Superior" [2]. A convergência entre os objetivos do projeto e as perspetivas teóricas apresentadas no post sugere uma articulação conceptual que merece análise aprofundada.

 

O presente relatório estrutura-se em torno de três eixos principais: (1) análise crítica dos conceitos e argumentos apresentados no post; (2) caracterização do Projeto ELABORA e seus fundamentos teórico-metodológicos; e (3) identificação e análise das convergências, complementaridades e potenciais sinergias entre ambas as abordagens.


2. Análise Crítica do Post de 9/9/2025: Os Fundamentos da Pedagogia Híbrida Pós-Humanista

2.1 Enquadramento Teórico e Metodológico

O post apresenta uma análise crítica triangulada que se fundamenta em múltiplas tradições académicas, incluindo estudos ciborgues (Haraway, 2016), teoria pós-humanista (Braidotti, 2013), pedagogia crítica (Freire, 1970; hooks, 1994), e estudos de ciência e tecnologia [1]. Esta abordagem interdisciplinar revela uma preocupação em transcender perspetivas unidimensionais sobre a IA educacional, propondo uma análise que integra dimensões técnicas, sociais, políticas e éticas.

 

A escolha metodológica de uma "análise crítica triangulada" é particularmente significativa, pois reflete uma epistemologia que reconhece a complexidade dos fenómenos educacionais mediados por IA e a necessidade de múltiplas lentes teóricas para a sua compreensão. Esta abordagem alinha-se com os princípios do pensamento complexo (Morin, 2005) e da transdisciplinaridade (Nicolescu, 2002), que reconhecem a inadequação de perspetivas disciplinares isoladas para abordar questões contemporâneas complexas.

2.2 Análise dos Três Fenómenos Centrais

O post estrutura a sua análise em torno de três fenómenos principais identificados em desenvolvimentos emergentes da IA dialógica educacional: fadiga dialógica, sistemas de consciência metacognitiva artificial, e reciprocidade epistémica [1]. Esta estruturação revela uma preocupação em abordar tanto as limitações quanto as potencialidades dos sistemas de IA educacional.

2.2.1 Fadiga Dialógica: Reconceptualização Crítica

A análise da "fadiga dialógica" apresentada no post representa uma contribuição teórica significativa ao questionar a conceptualização deste fenómeno como limitação cognitiva individual. A proposta de interpretação através das lentes dos estudos ciborgues, particularmente a perspetiva de Haraway sobre relações "situadas" e "relacionais", oferece uma alternativa à visão biomédica dominante [1].

 

Esta reconceptualização é particularmente relevante para o Projeto ELABORA, que se foca nos processos dialógicos de construção de conhecimento. A interpretação da fadiga dialógica como "manifestação de incompatibilidade entre temporalidades humanas e algorítmicas" [1] sugere a necessidade de design de sistemas de IA que respeitem os ritmos naturais da aprendizagem humana, um aspeto crucial para o desenvolvimento de interfaces educacionais eficazes.

 

A proposta de "pedagogias lentas" que respeitem ritmos biológicos e sociais da aprendizagem humana [1] ecoa as preocupações do movimento Slow Education (Honoré, 2004) e alinha-se com princípios da sustentabilidade educacional. Esta perspetiva é fundamental para o Projeto ELABORA, que deve considerar não apenas a eficácia técnica dos sistemas de IA, mas também a sua sustentabilidade cognitiva e emocional.

2.2.2 Consciência Metacognitiva Artificial: Questões Ontológicas

A análise crítica dos sistemas de consciência metacognitiva artificial apresentada no post levanta questões ontológicas fundamentais sobre a natureza da consciência e reflexividade em contextos educacionais [1]. A crítica à "antropomorfização problemática" da tecnologia (Hayles, 2017) é particularmente pertinente para o Projeto ELABORA, que deve navegar cuidadosamente entre o aproveitamento das capacidades dos sistemas de IA e a evitação de conceções erróneas sobre as suas limitações.

 

A distinção entre "simulação sofisticada de processos reflexivos" e "experiência vivida e corporificada que fundamenta a reflexividade humana genuína" [1] é crucial para o design de sistemas educacionais que promovam o desenvolvimento da metacognição autêntica nos estudantes. Esta perspetiva sugere que o Projeto ELABORA deve focar-se não na substituição da reflexividade humana por sistemas artificiais, mas na criação de ambientes que potenciem e apoiem o desenvolvimento de capacidades metacognitivas genuínas.

2.2.3 Reciprocidade Epistémica: Translação e Transformação Mútua

A interpretação da reciprocidade epistémica através da Teoria Actor-Rede como processo de "translação mútua" [1] oferece uma perspetiva sofisticada sobre as interações humano-IA em contextos educacionais. Esta abordagem reconhece que tanto humanos quanto sistemas de IA são transformados através das suas interações, evitando conceções simplistas de transferência unidirecional de conhecimento.

 

Para o Projeto ELABORA, esta perspetiva é fundamental, pois sugere que os processos dialógicos de construção de conhecimento mediado por IA envolvem transformações mútuas que devem ser cuidadosamente estudadas e compreendidas. A reciprocidade epistémica não é apenas um objetivo desejável, mas um fenómeno complexo que requer investigação empírica aprofundada.

2.3 Implicações para a Pedagogia Híbrida Pós-Humanista

O post propõe cinco princípios fundamentais para a pedagogia híbrida pós-humanista: sustentabilidade multiespécie, justiça epistémica, agência distribuída, temporalidades múltiplas, e responsabilidade relacional [1]. Estes princípios representam uma síntese inovadora de múltiplas tradições teóricas e oferecem um framework conceptual robusto para orientar práticas educacionais em ambientes mediados por IA.

 

sustentabilidade multiespécie reconhece que ambientes educacionais contemporâneos envolvem múltiplos actantes, incluindo humanos, sistemas de IA, e outros elementos tecnológicos e naturais. Este princípio é particularmente relevante para o Projeto ELABORA, que deve considerar como diferentes actantes contribuem para os processos dialógicos de construção de conhecimento.

 

justiça epistémica enfatiza a necessidade de reconhecer e valorizar múltiplas formas de conhecimento, evitando a imposição de epistemologias dominantes. Para o Projeto ELABORA, isto implica a necessidade de desenvolver sistemas de IA que sejam sensíveis à diversidade epistemológica e cultural dos estudantes.

 

agência distribuída reconhece que a agência emerge de redes relacionais complexas, não de entidades individuais isoladas. Esta perspetiva é crucial para compreender como a agência se manifesta em ambientes educacionais mediados por IA e como pode ser potenciada através de design apropriado.

 

As temporalidades múltiplas reconhecem que diferentes actantes operam em ritmos temporais distintos, e que sistemas educacionais eficazes devem acomodar esta diversidade temporal. Este princípio alinha-se com a crítica à fadiga dialógica apresentada no post e é fundamental para o design de interfaces educacionais sustentáveis.

 

responsabilidade relacional enfatiza que a responsabilidade emerge das relações entre actantes, não de propriedades individuais. Este princípio é particularmente importante para questões éticas relacionadas com o uso de IA em educação e para o desenvolvimento de sistemas que promovam responsabilidade partilhada.


3. Caracterização do Projeto ELABORA: Objetivos e Metodologia

3.1 Enquadramento Institucional e Temporal

O Projeto ELABORA, desenvolvido no âmbito de um pós-doutoramento em Educação no UIDEF (Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação e Formação) do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, representa uma investigação longitudinal estruturada em duas fases: 2023-2024 e 2025-2027 [2]. Esta estruturação temporal permite uma abordagem aprofundada e reflexiva sobre os processos dialógicos de construção de conhecimento mediado por IA.

 

O enquadramento institucional no UIDEF é particularmente significativo, pois esta unidade tem uma tradição consolidada em investigação educacional e formação de professores, oferecendo um contexto académico robusto para o desenvolvimento do projeto. A localização no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa também proporciona acesso a recursos bibliográficos, tecnológicos e humanos essenciais para uma investigação desta natureza.

3.2 Objetivos e Questões de Investigação

O objetivo principal do Projeto ELABORA - "caracterizar os processos dialógicos de construção de conhecimento mediado por IA, em contexto de aprendizagem formal, de estudantes do Ensino Superior" [2] - revela uma preocupação em compreender empiricamente como os estudantes universitários interagem com sistemas de IA para construir conhecimento através de processos dialógicos.

 

Este objetivo alinha-se perfeitamente com as preocupações teóricas apresentadas no post analisado, particularmente no que se refere à necessidade de compreender os processos de reciprocidade epistémica e as dinâmicas de agência distribuída em ambientes educacionais mediados por IA. A escolha do ensino superior como contexto de investigação é estratégica, pois permite estudar interações com estudantes que possuem maior autonomia e capacidades metacognitivas desenvolvidas.

3.3 Abordagem Metodológica

Embora os detalhes metodológicos específicos do Projeto ELABORA não sejam completamente explicitados nas fontes disponíveis, a referência à "investigação-ação" [2] sugere uma abordagem que combina investigação rigorosa com intervenção prática. Esta metodologia é particularmente apropriada para estudar processos dialógicos, pois permite a participação ativa dos investigadores nos processos que estão a estudar.

 

A investigação-ação também se alinha com os princípios da pedagogia crítica (Freire, 1970) e com as perspetivas pós-humanistas que enfatizam a agência distribuída e a responsabilidade relacional. Esta abordagem metodológica permite que o projeto contribua não apenas para o conhecimento teórico sobre IA dialógica educacional, mas também para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras.

3.4 Recursos e Ferramentas

O projeto inclui o desenvolvimento de um "Chatbot sobre o projeto ELABORA" [2], que representa tanto uma ferramenta de investigação quanto um artefacto que pode ser estudado em si mesmo. Esta abordagem reflexiva, onde o projeto utiliza IA para estudar IA, é metodologicamente sofisticada e alinha-se com perspetivas pós-humanistas sobre agência distribuída.

 

O "Programa ELABORA", descrito como trabalho "baseado na narrativa compartilhada de experiências que aprimoram as práticas de aprendizagem" [2], sugere uma abordagem que valoriza o conhecimento experiencial e a reflexão colaborativa, princípios fundamentais da pedagogia crítica e da investigação-ação.


4. Convergências e Sinergias: A Pedagogia Híbrida Pós-Humanista e o Projeto ELABORA

4.1 Alinhamento Teórico-Conceptual

A análise das perspetivas teóricas apresentadas no post e dos fundamentos do Projeto ELABORA revela convergências significativas que sugerem uma articulação conceptual profunda. Ambas as abordagens partilham uma preocupação com a compreensão crítica dos processos educacionais mediados por IA, evitando tanto o tecno-otimismo acrítico quanto o tecno-pessimismo paralisante.

 

A ênfase do post na necessidade de "pedagogias lentas" que respeitem ritmos biológicos e sociais da aprendizagem [1] alinha-se perfeitamente com a preocupação do Projeto ELABORA em caracterizar processos dialógicos autênticos. Ambas as abordagens reconhecem que a eficácia educacional não pode ser medida apenas em termos de eficiência técnica, mas deve considerar dimensões de sustentabilidade cognitiva, emocional e social.

 

A crítica à "antropomorfização problemática" da tecnologia apresentada no post [1] é fundamental para o Projeto ELABORA, que deve navegar cuidadosamente entre o aproveitamento das capacidades dos sistemas de IA e a manutenção de uma compreensão realista das suas limitações. Esta perspetiva crítica é essencial para evitar conceções erróneas sobre consciência artificial e para focar nos aspectos genuinamente úteis da IA educacional.

4.2 Complementaridade Metodológica

A abordagem de "análise crítica triangulada" proposta no post [1] complementa perfeitamente a metodologia de investigação-ação do Projeto ELABORA [2]. Enquanto a investigação-ação permite a participação ativa e a intervenção prática, a análise crítica triangulada oferece ferramentas teóricas sofisticadas para compreender e interpretar os fenómenos observados.

 

A combinação destas abordagens metodológicas permite uma investigação que é simultaneamente empiricamente fundamentada e teoricamente sofisticada. A investigação-ação proporciona dados ricos sobre processos dialógicos reais, enquanto a análise crítica triangulada oferece frameworks conceptuais para interpretar estes dados de forma crítica e reflexiva.

4.3 Contribuições Mútuas e Potenciais Sinergias

O post oferece ao Projeto ELABORA um framework teórico robusto para interpretar os processos dialógicos de construção de conhecimento mediado por IA. Os cinco princípios da pedagogia híbrida pós-humanista (sustentabilidade multiespécie, justiça epistémica, agência distribuída, temporalidades múltiplas, e responsabilidade relacional) [1] podem servir como lentes analíticas para examinar os dados empíricos recolhidos no projeto.

 

Por sua vez, o Projeto ELABORA pode oferecer ao framework teórico apresentado no post uma base empírica sólida e dados concretos sobre como os processos dialógicos se manifestam na prática. A investigação empírica pode validar, refinar ou desafiar as proposições teóricas, contribuindo para o desenvolvimento de uma teoria mais robusta e empiricamente fundamentada.

4.4 Implicações para a Prática Educacional

A convergência entre as perspetivas teóricas do post e os objetivos práticos do Projeto ELABORA tem implicações significativas para a prática educacional. A combinação de análise crítica sofisticada com investigação empírica rigorosa pode informar o desenvolvimento de práticas pedagógicas que sejam simultaneamente inovadoras e fundamentadas.

 

Os princípios da pedagogia híbrida pós-humanista podem orientar o design de ambientes educacionais que promovam processos dialógicos autênticos, enquanto os resultados empíricos do Projeto ELABORA podem informar a implementação prática destes princípios. Esta sinergia entre teoria e prática é essencial para o desenvolvimento de abordagens educacionais que sejam tanto conceptualmente robustas quanto praticamente eficazes.


5. Pertinência e Relevância do Projeto ELABORA

5.1 Contribuição para o Campo da IA Educacional

O Projeto ELABORA representa uma contribuição significativa para o campo emergente da IA educacional ao focar especificamente nos processos dialógicos de construção de conhecimento. Esta abordagem é particularmente importante num momento em que muitas investigações sobre IA educacional se focam em aspetos técnicos ou de eficiência, negligenciando dimensões pedagógicas e epistemológicas fundamentais.

 

A ênfase do projeto nos processos dialógicos é crucial porque reconhece que a aprendizagem é fundamentalmente um processo social e comunicativo. Esta perspetiva alinha-se com tradições pedagógicas consolidadas (Freire, 1970; Vygotsky, 1978) e oferece uma alternativa às abordagens tecno-centradas que dominam muitas discussões sobre IA educacional.

5.2 Relevância para a Formação de Professores

O Projeto ELABORA tem implicações importantes para a formação de professores, particularmente no que se refere ao desenvolvimento de competências para trabalhar com IA em contextos educacionais. A caracterização dos processos dialógicos pode informar programas de formação que preparem os professores para facilitar interações produtivas entre estudantes e sistemas de IA.

 

A abordagem crítica do projeto, alinhada com as perspetivas apresentadas no post analisado, é essencial para formar professores que sejam utilizadores críticos e reflexivos da IA, capazes de aproveitar as suas potencialidades enquanto reconhecem as suas limitações. Esta formação crítica é fundamental para evitar tanto a rejeição acrítica quanto a adoção acrítica da IA educacional.

5.3 Implicações para Políticas Educacionais

Os resultados do Projeto ELABORA podem informar o desenvolvimento de políticas educacionais relacionadas com a integração da IA em contextos educacionais. A caracterização empírica dos processos dialógicos pode fornecer evidências sobre as condições necessárias para uma integração eficaz da IA, informando decisões sobre investimentos, formação e regulamentação.

 

A perspetiva crítica do projeto, informada pelos princípios da pedagogia híbrida pós-humanista, pode também contribuir para políticas que promovam uma integração ética e socialmente responsável da IA educacional. Esta contribuição é particularmente importante num momento em que muitas políticas são desenvolvidas com base em promessas tecnológicas não validadas empiricamente.

5.4 Contribuição para a Investigação Educacional

O Projeto ELABORA contribui para a investigação educacional ao desenvolver metodologias inovadoras para estudar processos educacionais mediados por IA. A combinação de investigação-ação com análise crítica triangulada oferece um modelo metodológico que pode ser adaptado e aplicado noutros contextos de investigação.

 

A abordagem interdisciplinar do projeto, que integra perspetivas da educação, tecnologia, filosofia e sociologia, também contribui para o desenvolvimento de uma investigação educacional mais holística e complexa. Esta abordagem é essencial para abordar questões contemporâneas que transcendem fronteiras disciplinares tradicionais.


6. Desafios e Limitações

6.1 Desafios Metodológicos

A investigação de processos dialógicos mediados por IA apresenta desafios metodológicos significativos. A complexidade das interações humano-IA, a rapidez da evolução tecnológica, e a necessidade de considerar múltiplas dimensões (técnica, pedagógica, social, ética) tornam esta investigação particularmente desafiante.

 

O Projeto ELABORA deve navegar cuidadosamente entre a necessidade de rigor metodológico e a flexibilidade necessária para adaptar-se a desenvolvimentos tecnológicos rápidos. A abordagem de investigação-ação oferece alguma flexibilidade, mas requer cuidado para manter a qualidade e a validade da investigação.

6.2 Limitações de Contexto

O foco do Projeto ELABORA no ensino superior português pode limitar a generalização dos seus resultados para outros contextos educacionais e culturais. Esta limitação é particularmente importante dado que os processos dialógicos são profundamente influenciados por fatores culturais e sociais.

 

No entanto, esta limitação pode ser mitigada através da articulação com investigações similares noutros contextos e através da aplicação dos frameworks teóricos desenvolvidos (como os princípios da pedagogia híbrida pós-humanista) a diferentes contextos culturais e educacionais.

6.3 Desafios Éticos

A investigação sobre IA educacional levanta questões éticas importantes relacionadas com privacidade, consentimento, e potencial manipulação. O Projeto ELABORA deve abordar estas questões de forma rigorosa, particularmente dado o seu foco em processos dialógicos que podem envolver a recolha de dados sensíveis sobre processos de pensamento dos estudantes.

 

A perspetiva pós-humanista apresentada no post analisado oferece recursos conceptuais importantes para abordar estas questões éticas, particularmente através dos princípios de responsabilidade relacional e justiça epistémica [1].


7. Recomendações para Orientações Futuras

7.1 Integração de Perspetivas Teóricas

Recomenda-se que o Projeto ELABORA integre explicitamente os princípios da pedagogia híbrida pós-humanista apresentados no post analisado como framework analítico para interpretar os dados empíricos. Esta integração pode enriquecer a análise e contribuir para o desenvolvimento de uma teoria mais robusta sobre processos dialógicos mediados por IA.

 

A aplicação dos cinco princípios (sustentabilidade multiespécie, justiça epistémica, agência distribuída, temporalidades múltiplas, e responsabilidade relacional) como lentes analíticas pode revelar dimensões dos processos dialógicos que poderiam ser negligenciadas por abordagens mais convencionais.

7.2 Desenvolvimento de Instrumentos de Avaliação

O projeto deve desenvolver instrumentos de avaliação que sejam sensíveis às múltiplas dimensões dos processos dialógicos identificadas no post analisado. Estes instrumentos devem ir além de métricas técnicas convencionais para incluir dimensões de sustentabilidade cognitiva, justiça epistémica, e responsabilidade relacional.

 

O desenvolvimento destes instrumentos pode contribuir significativamente para o campo da IA educacional ao oferecer alternativas às métricas predominantemente técnicas que dominam muitas avaliações de sistemas de IA educacional.

7.3 Colaboração Interdisciplinar

Recomenda-se o estabelecimento de colaborações interdisciplinares que incluam investigadores de áreas como filosofia da educação, sociologia da tecnologia, e estudos de ciência e tecnologia. Estas colaborações podem enriquecer a análise teórica e contribuir para uma compreensão mais holística dos processos estudados.

 

A abordagem interdisciplinar é particularmente importante dado que os processos dialógicos mediados por IA transcendem fronteiras disciplinares tradicionais e requerem perspetivas múltiplas para a sua compreensão adequada.

7.4 Disseminação e Impacto

O projeto deve desenvolver estratégias de disseminação que alcancem múltiplas audiências, incluindo investigadores, educadores, decisores políticos, e desenvolvedores de tecnologia educacional. A disseminação deve incluir tanto publicações académicas quanto recursos práticos para educadores.

 

A criação de recursos educacionais abertos baseados nos resultados do projeto pode maximizar o seu impacto e contribuir para a formação de uma comunidade de prática em torno da IA dialógica educacional.


8. Conclusões

A análise do post "PERSPETIVA DIALÓGICA DA IA GENERATIVA NA EDUCAÇÃO: PEDAGOGIA HÍBRIDA PÓS-HUMANISTA EM AMBIENTES DE APRENDIZAGEM EMERGENTES" e a sua articulação com o Projeto ELABORA revela convergências teóricas e metodológicas significativas que demonstram a pertinência e relevância deste projeto de investigação no panorama atual da IA educacional.

 

O post oferece um framework teórico sofisticado que pode enriquecer significativamente a análise dos dados empíricos do Projeto ELABORA, enquanto o projeto oferece uma base empírica que pode validar e refinar as proposições teóricas apresentadas no post. Esta sinergia entre teoria crítica e investigação empírica é essencial para o desenvolvimento de uma compreensão robusta dos processos dialógicos mediados por IA.

 

Os cinco princípios da pedagogia híbrida pós-humanista (sustentabilidade multiespécie, justiça epistémica, agência distribuída, temporalidades múltiplas, e responsabilidade relacional) oferecem lentes analíticas valiosas para examinar os processos dialógicos de construção de conhecimento que constituem o foco do Projeto ELABORA. A aplicação destes princípios pode revelar dimensões dos processos educacionais que são frequentemente negligenciadas por abordagens mais convencionais.

 

A pertinência do Projeto ELABORA é evidente na sua contribuição para questões centrais identificadas no post analisado, particularmente no que se refere à necessidade de compreender empiricamente como os processos dialógicos se manifestam em ambientes educacionais mediados por IA. Esta compreensão é fundamental para o desenvolvimento de práticas pedagógicas que sejam simultaneamente inovadoras e pedagogicamente fundamentadas.

 

O projeto também contribui para questões mais amplas sobre o futuro da educação numa era de IA, oferecendo perspetivas que transcendem tanto o tecno-otimismo acrítico quanto o tecno-pessimismo paralisante. A abordagem crítica e reflexiva do projeto, alinhada com os princípios da pedagogia híbrida pós-humanista, oferece um caminho para uma integração ética e pedagogicamente fundamentada da IA em contextos educacionais.

 

Em síntese, a articulação entre as perspetivas teóricas apresentadas no post analisado e os objetivos práticos do Projeto ELABORA representa uma contribuição valiosa para o desenvolvimento de uma IA educacional que seja genuinamente dialógica, pedagogicamente fundamentada, e socialmente responsável. Esta articulação demonstra não apenas a pertinência do projeto, mas também o seu potencial para contribuir significativamente para o avanço do conhecimento e da prática no campo da IA educacional.

 

A convergência entre teoria crítica e investigação empírica exemplificada por esta articulação oferece um modelo para futuras investigações no campo da IA educacional, sugerindo que o progresso genuíno neste campo requer não apenas inovação tecnológica, mas também reflexão crítica profunda sobre as implicações pedagógicas, epistemológicas e sociais destas inovações.

 



Referências Bibliográficas

[1] Brazão, J. P. (2025, 9 de setembro). PERSPETIVA DIALÓGICA DA IA GENERATIVA NA EDUCAÇÃO: PEDAGOGIA HÍBRIDA PÓS-HUMANISTA EM AMBIENTES DE APRENDIZAGEM EMERGENTES. IA Dialógica. https://iadialogica.blogspot.com/2025/09/pedagogia-hibrida-pos-humanista-em.html

 

[2] Brazão, J. P. (2025). PROJETO ELABORA: PROCESSOS DIALÓGICOS DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO EM CONTEXTO MEDIADO POR INTERFACES COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. Universidade da Madeira. https://www.jpaulobrazao.com/projetos-cursos-e-trabalhos-1/projeto-elabora-processos-dial%C3%93gicos-de-constru%C3%87%C3%83o-do-conhecimento-em-contexto-mediado-por-interfaces-com-intelig%C3%8Ancia-artificial

 

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Morin, E. (2005). Introduction à la pensée complexe. Éditions du Seuil.

 

Nicolescu, B. (2002). Manifesto of transdisciplinarity. State University of New York Press.

 

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Selwyn, N. (2019). Should robots replace teachers? AI and the future of education. Polity Press.

 

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Vygotsky, L. S. (1978). Mind in society: The development of higher psychological processes. Harvard University Press.

 

Wajcman, J. (2010). Feminist theories of technology. Cambridge Journal of Economics, 34(1), 143-152.

 


Anexos

Anexo A: Síntese dos Princípios da Pedagogia Híbrida Pós-Humanista

Princípio

Definição

Implicações para o Projeto ELABORA

Sustentabilidade Multiespécie

Reconhecimento de que ambientes educacionais envolvem múltiplos actantes (humanos, IA, tecnologias, natureza)

Necessidade de considerar como diferentes actantes contribuem para processos dialógicos

Justiça Epistémica

Valorização e reconhecimento de múltiplas formas de conhecimento e epistemologias

Desenvolvimento de sistemas de IA sensíveis à diversidade epistemológica e cultural

Agência Distribuída

Compreensão de que a agência emerge de redes relacionais complexas

Análise de como a agência se manifesta em ambientes educacionais mediados por IA

Temporalidades Múltiplas

Reconhecimento de que diferentes actantes operam em ritmos temporais distintos

Design de interfaces educacionais que acomodem diversidade temporal

Responsabilidade Relacional

Responsabilidade emerge das relações entre actantes, não de propriedades individuais

Desenvolvimento de sistemas que promovam responsabilidade partilhada


Anexo B: Convergências entre o Post Analisado e o Projeto ELABORA

Aspeto

Post IA Dialógica

Projeto ELABORA

Convergência

Foco Teórico

Pedagogia híbrida pós-humanista

Processos dialógicos mediados por IA

Ambos enfatizam dimensões dialógicas e críticas

Metodologia

Análise crítica triangulada

Investigação-ação

Complementaridade entre análise teórica e prática empírica

Preocupações Éticas

Crítica ao tecno-solucionismo

Caracterização de processos autênticos

Ambos evitam abordagens acríticas à IA educacional

Temporalidade

Pedagogias lentas, ritmos naturais

Processos dialógicos sustentáveis

Reconhecimento da importância das temporalidades humanas

Epistemologia

Justiça epistémica, múltiplas formas de conhecimento

Construção dialógica de conhecimento

Valorização de processos de conhecimento participativos


Anexo C: Recomendações Práticas para Implementação

Para Investigadores

  1. Integração Teórica: Utilizar os princípios da pedagogia híbrida pós-humanista como framework analítico
  2. Metodologia Mista: Combinar investigação-ação com análise crítica triangulada
  3. Colaboração Interdisciplinar: Estabelecer parcerias com investigadores de múltiplas disciplinas
  4. Ética Reflexiva: Abordar questões éticas através de perspetivas relacionais

Para Educadores

  1. Formação Crítica: Desenvolver competências para análise crítica de sistemas de IA
  2. Práticas Dialógicas: Implementar metodologias que promovam diálogo autêntico
  3. Sustentabilidade Cognitiva: Respeitar ritmos naturais de aprendizagem
  4. Responsabilidade Partilhada: Promover agência distribuída em ambientes educacionais

Para Decisores Políticos

  1. Políticas Fundamentadas: Basear decisões em evidências empíricas rigorosas
  2. Abordagem Holística: Considerar múltiplas dimensões da integração de IA
  3. Formação Docente: Investir em formação crítica e reflexiva
  4. Ética Proativa: Desenvolver frameworks éticos antes da implementação massiva


 

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