Paulo Brazão em processo dialógico com Claude AI
A integração de agentes conversacionais baseados em modelos de linguagem de grande escala (LLM) nos contextos educativos tem suscitado um crescente interesse académico, particularmente no que concerne à aprendizagem dialógica e à co-construção de significados. A literatura recente evidencia o potencial transformador destas tecnologias, ao mesmo tempo que alerta para os desafios inerentes à sua implementação pedagógica (Beale, 2025; Tang et al., 2025).
Enquadramento Teórico e Publicações Institucionais
A UNESCO e a OCDE têm vindo a publicar orientações fundamentais para a integração ética da IA na educação. O documento AI and Education: Guidance for Policy-makers (UNESCO, 2021) estabelece princípios orientadores que enfatizam a centralidade humana nas decisões pedagógicas. Mais recentemente, em maio de 2025, a OCDE e a Comissão Europeia lançaram o AI Literacy Framework for Primary and Secondary Education, que define competências essenciais estruturadas em quatro domínios: envolver-se com IA, criar com IA, gerir IA e conceber IA (OCDE & CE, 2025). O relatório OECD Digital Education Outlook 2023 analisa as abordagens de governança em 18 países, revelando que a maioria emitiu orientações não vinculativas, delegando nas escolas a responsabilidade de estabelecer regras específicas (OCDE, 2023).
Pedagogia Dialógica e Tutoria com IA
A investigação sobre agentes conversacionais colaborativos (CCA) demonstra resultados promissores na promoção do diálogo produtivo entre estudantes. O estudo de de Araujo et al. (2025) sobre o agente "Clair", integrado na plataforma Go-Lab, evidenciou impactos positivos na partilha de ideias e no envolvimento com o raciocínio dos pares, embora com limitações na transferência para a aquisição de conhecimento. Paralelamente, Favero et al. (2024) desenvolveram um tutor socrático baseado em LLM que demonstrou capacidades superiores na promoção do pensamento crítico comparativamente a chatbots convencionais, utilizando modelos Llama2 executáveis localmente para garantir privacidade e democratização do acesso.
A conceptualização da IA generativa como parceiro dialógico, fundamentada na teoria da heteroglossia de Bakhtin, tem sido explorada por Tang et al. (2025), que argumentam que estas ferramentas não devem funcionar como provedores definitivos de conhecimento, mas como agentes que facilitam a co-construção colaborativa através do diálogo. Brazão e Tinoca (2025) investigaram a evolução do questionamento crítico nas relações dialógicas entre IA e estudantes do ensino superior, identificando padrões de questionamento centrados nos níveis integrativo e de envolvimento crítico. Os processos dialógicos com a IA intensificam o envolvimento crítico.
Implicações para Políticas, Currículo e Práticas de Sala de Aula
As evidências apontam para a necessidade de integrar a literacia em IA transversalmente nos currículos, preparando os estudantes para utilizar, compreender, criar e refletir criticamente sobre estas tecnologias. A formação de professores assume particular relevância, devendo contemplar competências para o desenho de interações dialógicas que promovam a agência epistémica dos estudantes. Os modelos híbridos, que combinam tutoria humana com assistência de IA, emergem como abordagem mais promissora, preservando as dimensões emocionais e relacionais essenciais ao processo educativo (Fakour & Imani, 2025).
Referências
Beale, R. (2025). Dialogic pedagogy for large language models: Aligning conversational AI with proven theories of learning. arXiv. https://arxiv.org/abs/2506.19484
Brazão, P., & Tinoca, L. (2025). Artificial intelligence and critical thinking: A case study with educational chatbots. Frontiers in Education, 10, 1630493. https://doi.org/10.3389/feduc.2025.1630493
de Araujo, Z., et al. (2025). Investigating the impact of a collaborative conversational agent on dialogue productivity and knowledge acquisition. International Journal of Artificial Intelligence in Education. https://doi.org/10.1007/s40593-025-00469-7
Fakour, H., & Imani, M. (2025). Socratic wisdom in the age of AI: A comparative study of ChatGPT and human tutors in enhancing critical thinking skills. Frontiers in Education, 10, 1528603. https://doi.org/10.3389/feduc.2025.1528603
Favero, L., Pérez-Ortiz, J. A., Käser, T., & Oliver, N. (2024). Enhancing critical thinking in education by means of a Socratic chatbot. ECAI'24 Workshop on AI in Education and Educational Research. https://arxiv.org/abs/2409.05511
OCDE. (2023). OECD Digital Education Outlook 2023. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/c74f03de-en
OCDE & Comissão Europeia. (2025). Empowering learners for the age of AI: An AI literacy framework for primary and secondary education. OECD Publishing.
Tang, K.-S., et al. (2025). Generative AI as a dialogic partner: Enhancing multiple perspectives, reasoning, and argumentation in science education with customized chatbots. Journal of Science Education and Technology. https://doi.org/10.1007/s10956-025-10240-1
UNESCO. (2021). AI and education: Guidance for policy-makers. UNESCO Publishing.https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000376709