25 agosto 2025

RELATÓRIO IA Aplicada à Educação (25/8/2025)

Síntese da Perspetiva Dialógica na Aprendizagem


Paulo Brazão em trabalho dialógico com Manus AI


Resumo

A presente síntese apresenta os resultados de uma pesquisa sistemática sobre a aplicação da Inteligência Artificial (IA) na educação, com ênfase específica na perspetiva dialógica da aprendizagem. Através da análise de 43 fontes identificadas e seleção criteriosa de 19 publicações de alta relevância, este estudo examina como a IA conversacional pode ser alinhada com teorias pedagógicas estabelecidas, particularmente a pedagogia dialógica de Paulo Freire e as teorias de aprendizagem sociocultural de Vygotsky.Os resultados revelam que, embora a IA ofereça potencialidades significativas para personalização e suporte educacional, a sua integração efetiva requer uma abordagem crítica e reflexiva que preserve a dimensão humana e dialógica da educação. Identificaram-se desafios importantes, incluindo o "fetiche da tecnologia", o despreparo institucional e questões éticas relacionadas com equidade e privacidade. As soluções propostas centram-se na formação adequada de professores, no design de sistemas centrados na aprendizagem e no desenvolvimento de políticas educacionais que promovam o uso ético e equitativo da IA.

Palavras-chave: Inteligência Artificial, Educação, Pedagogia Dialógica, Aprendizagem Conversacional, Sistemas Tutores Inteligentes, Chatbots Educacionais, Paulo Freire, Formação de Professores1.

Introdução

A integração da Inteligência Artificial (IA) nos contextos educacionais representa uma das transformações mais significativas da educação contemporânea. Num cenário caracterizado por previsões de uma quarta revolução industrial impulsionada por tecnologias disruptivas [1], a IA emerge como uma ferramenta com potencial para revolucionar os processos de ensino e aprendizagem. Contudo, esta transformação tecnológica levanta questões fundamentais sobre a natureza da educação, o papel dos educadores e a preservação dos valores humanísticos que tradicionalmente orientam as práticas pedagógicas. A perspetiva dialógica na educação, fundamentada nos trabalhos pioneiros de Paulo Freire e enriquecida pelas contribuições de teóricos como Vygotsky e Bakhtin, enfatiza a importância do diálogo, da reflexão crítica e da construção colaborativa do conhecimento. Esta abordagem pedagógica, que coloca o diálogo no centro do processo educativo, oferece um quadro teórico valioso para compreender como a IA pode ser integrada de forma significativa e humanizada nos contextos de aprendizagem.O presente estudo surge da necessidade de compreender como as tecnologias de IA conversacional, incluindo chatbots educacionais, sistemas tutores inteligentes e modelos de linguagem grande (Large Language Models - LLMs), podem ser alinhadas com os princípios da pedagogia dialógica. Esta questão torna-se particularmente relevante num momento em que se observa um "fascínio desmedido dos alunos com os textos criados por inteligência artificial" [2], acompanhado por um "despreparo institucional para lidar com esse novo desafio" [2].1.1 

Objetivos da Síntese

Esta síntese crítica tem como objetivo principal analisar o estado atual da investigação sobre IA aplicada à educação, com foco específico na perspetiva dialógica da aprendizagem. Os objetivos específicos incluem:
1.Mapear os fundamentos teóricos que sustentam a integração da IA na educação dialógica, examinando como teorias clássicas de aprendizagem podem ser aplicadas aos contextos tecnológicos contemporâneos.
2.Identificar e analisar as principais aplicações de sistemas de IA conversacional na educação, incluindo chatbots educacionais, sistemas tutores inteligentes e plataformas de aprendizagem adaptativa.
3.Examinar criticamente os desafios e limitações associados à implementação da IA na educação, com particular atenção às questões éticas, metodológicas e sociais.
4.Propor direções futuras para a investigação e prática educativa que promovam uma integração efetiva e humanizada da IA nos processos de ensino e aprendizagem.

1.2 Relevância e Justificação

A relevância desta síntese fundamenta-se em várias considerações. Em primeiro lugar, a rápida evolução das tecnologias de IA e a sua crescente presença nos contextos educacionais exigem uma reflexão crítica sobre as suas implicações pedagógicas. Como observam Wolschick et al. [3], "a integração efetiva da IA requer uma relação dialógica entre tecnologia e pedagogia, com atenção à diversidade e à equidade".Em segundo lugar, a literatura atual revela uma lacuna significativa entre o desenvolvimento tecnológico e a fundamentação pedagógica. Beale [4] identifica que "os modelos tendem a fornecer respostas diretas em vez de fomentar a co-construção do conhecimento", sugerindo a necessidade de abordagens que alinhem melhor a IA com teorias estabelecidas de aprendizagem. Finalmente, as preocupações éticas e sociais relacionadas com o uso da IA na educação requerem uma análise cuidadosa que considere não apenas a eficácia técnica, mas também os valores e princípios que devem orientar a educação numa sociedade democrática e inclusiva.

1.3 Estrutura da Síntese

Esta síntese está organizada em seis secções principais. Após esta introdução, a secção 2 apresenta os fundamentos teóricos que sustentam a perspetiva dialógica na educação com IA. A secção 3 examina as principais aplicações de sistemas conversacionais na educação, enquanto a secção 4 analisa criticamente os desafios e limitações identificados na literatura. A secção 5 discute as estratégias e soluções propostas para uma integração efetiva da IA na educação dialógica. Finalmente, a secção 6 apresenta as conclusões e recomendações para investigação e prática futuras.

2. Fundamentos Teóricos da IA Dialógica na Educação

A integração da Inteligência Artificial na educação não pode ser compreendida apenas através de uma lente tecnológica. Requer uma fundamentação sólida em teorias pedagógicas que reconheçam a complexidade dos processos de ensino e aprendizagem. A perspetiva dialógica oferece um quadro teórico particularmente relevante para esta integração, enfatizando a importância da comunicação, da reflexão crítica e da construção colaborativa do conhecimento.

2.1 A Pedagogia Dialógica de Paulo Freire

A obra de Paulo Freire continua a ser uma referência fundamental para compreender como a tecnologia pode ser integrada numa perspetiva educativa humanizadora. Pinto e Santo [1] destacam que "apresentamos posicionamentos iniciais sobre alguns valores freireanos que acreditamos serem fundamentais para apoiar o atual contexto educacional: a consciência crítica, o diálogo e a amorosidade".

2.1.1 Consciência Crítica e IAA consciência crítica, conceito central na pedagogia freireana, refere-se à capacidade de analisar criticamente a realidade e de compreender as relações de poder que a estruturam. No contexto da IA educacional, esta dimensão torna-se particularmente relevante face ao que Figueira [2] identifica como o "fetiche da tecnologia". A autora observa que "a experiência docente constatou o fetiche da tecnologia, assunto de interesse para a economia política da informação e comunicação".A consciência crítica em relação à IA implica desenvolver nos estudantes e educadores a capacidade de questionar não apenas as respostas fornecidas pelos sistemas de IA, mas também os processos através dos quais essas respostas são geradas. Isto inclui compreender os vieses algorítmicos, as limitações dos modelos e as implicações sociais e políticas do uso dessas tecnologias. Santos [5] argumenta que "a implementação da IA deve preservar e aprimorar, não suprimir, a natureza dialógica da educação". Esta perspetiva sugere que a IA deve ser utilizada como uma ferramenta que amplia as possibilidades de diálogo e reflexão crítica, em vez de as substituir por processos automatizados.

2.1.2 O Diálogo como Processo Educativo

O diálogo, na conceção freireana, não é meramente uma técnica de comunicação, mas um processo epistemológico através do qual educadores e educandos constroem colaborativamente o conhecimento. Esta conceção tem implicações profundas para o design de sistemas de IA educacional.Beale [4] identifica uma tensão fundamental neste contexto: "os modelos tendem a fornecer respostas diretas em vez de fomentar a co-construção do conhecimento". Esta observação sugere que os sistemas de IA, tal como são atualmente concebidos, podem contradizer os princípios básicos da educação dialógica.Para superar esta limitação, é necessário repensar o design dos sistemas conversacionais educacionais. Em vez de privilegiar a eficiência na transmissão de informação, estes sistemas devem ser concebidos para promover o questionamento, a reflexão e a construção colaborativa do conhecimento. Isto pode incluir estratégias como:•Questionamento socrático: Os sistemas de IA podem ser programados para fazer perguntas que levem os estudantes a refletir sobre os seus próprios processos de pensamento.

Problematização: Em vez de fornecer respostas prontas, a IA pode apresentar situações problemáticas que exijam análise crítica.

Facilitação do diálogo: A IA pode atuar como mediadora em discussões entre estudantes, promovendo a troca de perspetivas.

2.1.3 Amorosidade e Dimensão Humana

A amorosidade, conceito frequentemente mal compreendido na obra de Freire, refere-se à dimensão ética e afetiva da relação educativa. Não se trata de sentimentalismo, mas do reconhecimento de que a educação é fundamentalmente um ato de amor pela humanidade e pelo mundo.No contexto da IA educacional, a amorosidade manifesta-se na preocupação com o bem-estar integral dos estudantes e na resistência à desumanização dos processos educativos. Pinto e Santo [1] enfatizam que "há previsões que indicam o surgimento de uma quarta revolução industrial, impulsionada pela evolução de tecnologias disruptivas", mas alertam para a necessidade de manter os valores humanísticos no centro da educação. Esta dimensão sugere que a implementação da IA na educação deve ser orientada por princípios éticos que priorizem o desenvolvimento humano integral. Isto inclui considerações sobre:

Equidade: Garantir que todos os estudantes tenham acesso às tecnologias educacionais.

Privacidade: Proteger os dados pessoais e educacionais dos estudantes.

Autonomia: Promover a capacidade dos estudantes de tomar decisões informadas sobre a sua própria aprendizagem.

Dignidade: Reconhecer e respeitar a singularidade de cada pessoa no processo educativo.

2.2 Teorias de Aprendizagem Sociocultural

As teorias de aprendizagem sociocultural, particularmente as contribuições de Lev Vygotsky, oferecem insights valiosos para compreender como a IA pode ser integrada nos processos de aprendizagem dialógica.

2.2.1 Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)A Zona de Desenvolvimento Proximal, conceito central na teoria vygotskiana, refere-se ao espaço entre o que um aprendiz consegue fazer sozinho e o que consegue fazer com ajuda. Beale [4] identifica este conceito como particularmente relevante para o design de sistemas de IA educacional: "síntese de literatura existente sobre LLMs na educação e teorias pedagógicas abordadas incluem aprendizagem sociocultural de Vygotsky (scaffolding e ZDP)".Os sistemas de IA têm o potencial de atuar como mediadores sofisticados na ZDP, fornecendo suporte personalizado que se adapta ao nível de desenvolvimento de cada estudante. Contudo, esta mediação deve ser cuidadosamente concebida para promover a autonomia progressiva do aprendiz, em vez de criar dependência tecnológica.A aplicação efetiva do conceito de ZDP em sistemas de IA requer:•Avaliação contínua: Os sistemas devem ser capazes de avaliar dinamicamente o nível de competência do estudante.

Suporte adaptativo: O tipo e intensidade do suporte devem ajustar-se às necessidades específicas de cada momento de aprendizagem.

Retirada gradual: O sistema deve reduzir progressivamente o suporte à medida que o estudante desenvolve autonomia.

2.2.2 Scaffolding (Andaime Educacional)

O conceito de scaffolding, embora não originalmente de Vygotsky, desenvolve-se a partir das suas ideias sobre mediação. Refere-se ao suporte temporário fornecido a um aprendiz para o ajudar a realizar tarefas que ainda não consegue executar independentemente.Beale [4] propõe "estratégias de alinhamento" que incluem "sistemas de scaffolding adaptativos" como uma forma de alinhar os LLMs com teorias comprovadas de aprendizagem. Estes sistemas podem fornecer diferentes tipos de suporte:•Suporte procedimental: Orientação sobre como realizar tarefas específicas.•Suporte estratégico: Ajuda na seleção e aplicação de estratégias de aprendizagem.

Suporte metacognitivo: Promoção da reflexão sobre os próprios processos de pensamento.

2.2.3 Mediação e Ferramentas Culturais

Vygotsky enfatizava o papel das ferramentas culturais na mediação dos processos de aprendizagem. A linguagem, em particular, é vista como a ferramenta cultural mais importante para o desenvolvimento cognitivo. No contexto da IA educacional, os sistemas conversacionais podem ser compreendidos como novas formas de ferramentas culturais que medeiam a aprendizagem.Contudo, é importante reconhecer que estas ferramentas não são neutras. Como observa Figueira [2], existe o risco de que "a educação dialógica confirma o fascínio desmedido dos alunos com os textos criados por inteligência artificial". Isto sugere que a mediação através da IA pode ter efeitos não intencionais nos processos de aprendizagem.

2.3 O Método Socrático e a IA Conversacional

O método socrático, baseado no questionamento sistemático para promover a descoberta do conhecimento, oferece um modelo valioso para o design de sistemas de IA educacional. Beale [4] identifica o "método socrático" como uma das teorias pedagógicas fundamentais que devem orientar o desenvolvimento de sistemas conversacionais.

2.3.1 Questionamento como Estratégia Pedagógica

O questionamento socrático não visa obter respostas específicas, mas promover o pensamento crítico e a reflexão. No contexto da IA educacional, isto implica desenvolver sistemas que sejam capazes de fazer perguntas pertinentes e provocativas, em vez de simplesmente fornecer informações.Beale [4] propõe "prompts que encorajem questionamento socrático" como uma estratégia para alinhar os LLMs com princípios pedagógicos sólidos. Isto pode incluir:

Perguntas abertas: Que não tenham uma única resposta correta e promovam a exploração de diferentes perspetivas.

Perguntas de clarificação: Que ajudem os estudantes a precisar as suas ideias e argumentos.

Perguntas de evidência: Que exijam dos estudantes a fundamentação das suas afirmações.

Perguntas de implicação: Que levem os estudantes a considerar as consequências das suas ideias.

2.3.2 Maiêutica DigitalA maiêutica socrática, o processo de "dar à luz" ideias através do diálogo, pode ser adaptada para contextos digitais. Os sistemas de IA podem ser concebidos para atuar como "parteiras intelectuais", ajudando os estudantes a descobrir e desenvolver as suas próprias ideias.Esta abordagem requer uma mudança fundamental na conceção dos sistemas de IA educacional. Em vez de serem repositórios de conhecimento que fornecem respostas, devem ser facilitadores de processos de descoberta que ajudam os estudantes a construir o seu próprio conhecimento.

2.4 Framework Conversacional de Laurillard

Diana Laurillard desenvolveu um framework conversacional que descreve os diferentes tipos de interação necessários para uma aprendizagem efetiva. Beale [4] identifica este framework como relevante para o design de sistemas de IA educacional.

2.4.1 Ciclos de ConversaçãoO framework de Laurillard identifica quatro tipos principais de atividade de aprendizagem:
1.Discussão: Troca de ideias e perspetivas sobre conceitos abstratos.
2.Adaptação: Ajuste das ideias com base no feedback recebido.
3.Interação: Aplicação prática dos conceitos em contextos específicos.
4.Reflexão: Análise crítica dos resultados e processos de aprendizagem.Os sistemas de IA educacional podem ser concebidos para suportar cada um destes tipos de atividade, criando ciclos completos de conversação educativa.

2.4.2 Feedback e Reflexão

O feedback é um elemento central no framework de Laurillard. Contudo, o feedback efetivo não é meramente informativo, mas promove a reflexão e a autorregulação da aprendizagem. Os sistemas de IA podem fornecer diferentes tipos de feedback:
Feedback imediato: Sobre a correção de respostas específicas.
Feedback formativo: Que orienta o processo de aprendizagem.
Feedback metacognitivo: Que promove a reflexão sobre estratégias de aprendizagem.

2.5 Síntese

A análise dos fundamentos teóricos revela que a integração da IA na educação dialógica requer uma abordagem sofisticada que vá além da mera aplicação de tecnologias avançadas. Como observa Wolschick et al. [3], "a integração efetiva da IA requer uma relação dialógica entre tecnologia e pedagogia".Esta relação dialógica implica:1.Reconhecimento da complexidade: Os processos educativos são complexos e multidimensionais, não podendo ser reduzidos a algoritmos simples.

2.Preservação da agência humana: Os estudantes e educadores devem manter o controlo sobre os processos educativos, utilizando a IA como ferramenta de apoio, não de substituição.

3.Atenção às dimensões éticas: A implementação da IA deve ser orientada por valores humanísticos e preocupações com a equidade e justiça social.

4.Promoção do pensamento crítico: Os sistemas de IA devem ser concebidos para promover, não suprimir, a capacidade de pensamento crítico e reflexão.

A próxima secção examinará como estes princípios teóricos são aplicados na prática através de diferentes tipos de sistemas de IA conversacional na educação.

3. Aplicações de Sistemas Conversacionais na Educação

A implementação prática da IA dialógica na educação manifesta-se através de diversos tipos de sistemas conversacionais, cada um com características específicas e potencialidades distintas. Esta secção examina as principais categorias de aplicações, analisando as suas contribuições para os processos de ensino e aprendizagem numa perspetiva dialógica.

3.1 Chatbots Educacionais

Os chatbots educacionais representam uma das aplicações mais visíveis da IA conversacional na educação. Borges e Koehler [6] identificam que "os chatbots são amplamente utilizados na área da educação, especialmente em três principais contextos: tutoria inteligente, autoaprendizagem e mediação de ensino".

3.1.1 Contextos de Aplicação

A diversidade de contextos em que os chatbots educacionais são aplicados reflete a versatilidade desta tecnologia. A análise da literatura revela três áreas principais de aplicação:
Tutoria Inteligente: Neste contexto, os chatbots atuam como tutores virtuais que fornecem explicações personalizadas, esclarecem dúvidas e sugerem recursos de aprendizagem. Como observa um estudo recente, "chatbots podem atuar como tutores virtuais, explicando conceitos e sugerindo materiais complementares" [7]. Esta aplicação é particularmente relevante numa perspetiva dialógica, pois permite a criação de diálogos educativos personalizados que se adaptam às necessidades específicas de cada estudante.

Autoaprendizagem: Os chatbots podem suportar processos de aprendizagem autónoma, fornecendo orientação e feedback aos estudantes que estudam independentemente. Esta aplicação alinha-se com os princípios da educação dialógica ao promover a autonomia do aprendiz, embora seja necessário cuidado para evitar que esta autonomia se transforme em isolamento.

Mediação de Ensino: Os chatbots podem atuar como mediadores entre professores e estudantes, facilitando a comunicação e o acesso a recursos educacionais. Esta função é particularmente importante em contextos de ensino híbrido ou à distância, onde a mediação tecnológica se torna essencial.

3.1.2 Características Técnicas e Pedagógicas

A eficácia dos chatbots educacionais numa perspetiva dialógica depende das suas características técnicas e da forma como são integrados nos processos pedagógicos. Ashfaque et al. [8] identificam várias características importantes dos sistemas de tutoria inteligente baseados em chatbots:

Processamento de Linguagem Natural: A capacidade de compreender e gerar linguagem natural é fundamental para criar diálogos educativos significativos. Contudo, esta capacidade deve ser complementada por uma compreensão pedagógica que permita ao sistema não apenas responder a perguntas, mas também fazer perguntas que promovam a reflexão.

Personalização: Os chatbots podem adaptar-se ao perfil individual de cada estudante, considerando o seu nível de conhecimento, estilo de aprendizagem e preferências. Esta personalização é essencial numa perspetiva dialógica, pois reconhece a singularidade de cada aprendiz.

Disponibilidade Contínua: A disponibilidade 24/7 dos chatbots pode ser vista como uma vantagem, pois permite suporte contínuo aos estudantes. Contudo, Beale [4] alerta para o facto de que "a disponibilidade constante pode criar dependência", sugerindo a necessidade de um design cuidadoso que promova a autonomia progressiva.

3.1.3 Potencialidades e Limitações

A análise da literatura revela tanto potencialidades significativas quanto limitações importantes dos chatbots educacionais numa perspetiva dialógica.

Potencialidades:

Personalização em escala: Os chatbots podem fornecer suporte personalizado a um grande número de estudantes simultaneamente.

Feedback imediato: A capacidade de fornecer feedback instantâneo pode acelerar os processos de aprendizagem.

Suporte emocional: Alguns chatbots são concebidos para fornecer suporte emocional aos estudantes, reconhecendo a dimensão afetiva da aprendizagem.

Limitações:

Superficialidade do diálogo: Como observa Figueira [2], existe o risco de que os diálogos com IA sejam superficiais e não promovam verdadeira reflexão crítica.

Falta de compreensão contextual: Os chatbots podem ter dificuldade em compreender nuances contextuais importantes para o diálogo educativo.

Dependência tecnológica: O uso excessivo de chatbots pode reduzir a capacidade dos estudantes para o diálogo humano.

3.2 Sistemas Tutores Inteligentes (STI)

Os Sistemas Tutores Inteligentes representam uma aplicação mais sofisticada da IA na educação, integrando múltiplas tecnologias para criar experiências de aprendizagem adaptativas e personalizadas. Alrakhawi et al. [9] definem os STI como sistemas que "utilizam técnicas de Inteligência Artificial para instruir o aluno".

3.2.1 Arquitetura dos STIA arquitetura típica de um STI inclui quatro componentes principais, cada um com implicações específicas para a implementação de uma abordagem dialógica:

Modelo do Domínio: Este componente contém o conhecimento especializado da área de ensino. Numa perspetiva dialógica, este modelo deve incluir não apenas factos e procedimentos, mas também diferentes perspetivas e abordagens para compreender o domínio.

Modelo do Estudante: Este componente mantém informações sobre o conhecimento, competências e características individuais de cada estudante. Para ser efetivo numa perspetiva dialógica, deve incluir informações sobre os estilos de comunicação e preferências de aprendizagem do estudante.

Modelo Pedagógico: Este componente determina as estratégias de ensino utilizadas pelo sistema. Numa abordagem dialógica, deve incluir estratégias que promovam o questionamento, a reflexão e a construção colaborativa do conhecimento.

Interface de Utilizador: Este componente gere a interação entre o sistema e o estudante. Para suportar uma abordagem dialógica, deve permitir comunicação natural e bidirecional.

3.2.2 Aplicações Específicas

A literatura revela diversas aplicações específicas dos STI em diferentes domínios educacionais:Matemática: Nguyen et al. [10] descrevem um "chatbot tutor inteligente para resolver problemas matemáticos no ensino secundário". Este sistema demonstra como os STI podem ser aplicados a domínios específicos, fornecendo suporte personalizado para a resolução de problemas.

Ensino de Línguas: Freitas [11] examina o "ensino híbrido de inglês mediado por IA", explorando como os chatbots conversacionais podem suportar o desenvolvimento linguístico. Esta aplicação é particularmente relevante numa perspetiva dialógica, pois o desenvolvimento da linguagem é fundamentalmente um processo dialógico.

Ciências: Vários estudos exploram a aplicação de STI no ensino de ciências, onde podem suportar a investigação científica e a construção de conhecimento através do diálogo.

3.2.3 Eficácia e Avaliação

A avaliação da eficácia dos STI numa perspetiva dialógica requer métricas que vão além dos resultados tradicionais de aprendizagem. É necessário considerar:

Qualidade do diálogo: A capacidade do sistema de promover diálogos educativos significativos.

Desenvolvimento do pensamento crítico: O impacto do sistema na capacidade dos estudantes para pensar criticamente.

Autonomia do aprendiz: O grau em que o sistema promove a independência progressiva do estudante.

Satisfação e envolvimento: A experiência subjetiva dos estudantes com o sistema.

3.3 Modelos de Linguagem Grande (LLMs) na Educação

Os Modelos de Linguagem Grande, como o GPT e outros sistemas similares, representam a mais recente evolução da IA conversacional na educação. Beale [4] observa que "os LLMs estão rapidamente a transformar a educação ao permitir experiências de aprendizagem conversacional ricas".

3.3.1 Capacidades e Potencialidades

Os LLMs oferecem capacidades sem precedentes para o diálogo educativo:

Compreensão Contextual Avançada: 

Os LLMs podem compreender e responder a contextos complexos, permitindo diálogos mais sofisticados e nuanceados.

Geração de Conteúdo Criativo: Estes sistemas podem gerar explicações, exemplos e exercícios personalizados, adaptando-se às necessidades específicas de cada situação de aprendizagem.

Multimodalidade: Os LLMs mais recentes podem integrar texto, imagem e outros tipos de media, criando experiências de aprendizagem mais ricas.

3.3.2 Desafios EspecíficosContudo, os LLMs também apresentam desafios específicos numa perspetiva dialógica:

Tendência para Respostas Diretas: Como observa Beale [4], "os modelos tendem a fornecer respostas diretas em vez de fomentar a co-construção do conhecimento". Este é um desafio fundamental para a implementação de uma abordagem dialógica.

Falta de Transparência: Os LLMs são frequentemente "caixas negras" cujos processos de raciocínio não são transparentes, o que pode contradizer os princípios de transparência e reflexão crítica da educação dialógica.

Questões de Veracidade: Os LLMs podem gerar informações incorretas ou enviesadas, o que requer o desenvolvimento de competências críticas para a sua utilização efetiva.

3.4 Plataformas de Aprendizagem Adaptativa

As plataformas de aprendizagem adaptativa integram várias tecnologias de IA para criar ambientes de aprendizagem que se ajustam dinamicamente às necessidades dos estudantes. Estas plataformas representam uma aplicação holística da IA na educação, integrando elementos conversacionais com outras funcionalidades.

3.4.1 Características Principais

Análise de Dados de Aprendizagem: Estas plataformas recolhem e analisam grandes quantidades de dados sobre os processos de aprendizagem dos estudantes, utilizando esta informação para personalizar a experiência educativa.Recomendação Inteligente: Com base na análise de dados, as plataformas podem recomendar recursos, atividades e caminhos de aprendizagem personalizados.

Suporte Conversacional Integrado: Muitas plataformas incluem chatbots ou outros sistemas conversacionais como parte da experiência de aprendizagem.

3.4.2 Implicações para a Educação Dialógica

A integração de múltiplas tecnologias de IA em plataformas unificadas oferece oportunidades interessantes para a implementação de abordagens dialógicas:

Diálogo Multimodal: As plataformas podem suportar diferentes tipos de diálogo, incluindo texto, voz e interações visuais.

Comunidades de Aprendizagem: Algumas plataformas facilitam a criação de comunidades de aprendizagem onde os estudantes podem dialogar entre si com suporte de IA.

Reflexão Metacognitiva: As plataformas podem incluir ferramentas que promovem a reflexão dos estudantes sobre os seus próprios processos de aprendizagem.

3.5 Casos de Estudo e Exemplos Práticos

A análise da literatura revela vários casos de estudo interessantes que ilustram a aplicação prática da IA conversacional na educação:

3.5.1 Caso de Estudo: Disciplina de Ética e Informação
Figueira [2] descreve uma experiência prática numa disciplina de Ética e Informação numa universidade federal, onde foi implementada uma metodologia baseada na educação dialógica de Freire. A experiência revelou tanto potencialidades quanto desafios:"A metodologia do curso havia sido originalmente elaborada para um estágio em docência durante a pandemia, com os desafios e oportunidades do formato online. A quarta secção relata a experiência como professora de Ética e Informação, apresentando a receção da proposta dialógica e o desafio de engajamento."Esta experiência ilustra a importância de uma abordagem pedagógica sólida na implementação de tecnologias educacionais. O estudo revelou que, apesar do fascínio dos estudantes com os textos gerados por IA, foi possível manter uma abordagem dialógica através de uma metodologia cuidadosamente estruturada.

3.5.2 Caso de Estudo: Chatbot para Matemática
Nguyen et al. [10] descrevem o desenvolvimento de um chatbot tutor inteligente para resolver problemas de matemática no ensino secundário. O sistema foi concebido para:•Fornecer explicações passo-a-passo para problemas matemáticos•Adaptar-se ao nível de conhecimento do estudante

Promover a reflexão sobre estratégias de resolução de problemas

Os resultados mostraram que os estudantes que utilizaram o chatbot demonstraram melhorias significativas na resolução de problemas matemáticos, mas também revelaram a importância de manter o envolvimento humano no processo educativo.

3.6 Síntese das Aplicações

A análise das diferentes aplicações de sistemas conversacionais na educação revela um panorama complexo e em rápida evolução. Várias tendências emergem desta análise:

Diversidade de Abordagens: Existe uma grande diversidade de abordagens para a implementação de IA conversacional na educação, desde chatbots simples até sistemas complexos de aprendizagem adaptativa.

Potencial para Personalização: Todos os sistemas analisados demonstram potencial significativo para personalizar a experiência educativa, adaptando-se às necessidades individuais dos estudantes.

Desafios de Implementação: A implementação efetiva destes sistemas requer uma compreensão sofisticada tanto da tecnologia quanto da pedagogia.

Necessidade de Abordagem Crítica: Como observa Figueira [2], é essencial manter uma abordagem crítica que evite o "fetiche da tecnologia" e preserve os valores humanísticos da educação.A próxima secção examinará mais detalhadamente os desafios e limitações identificados na implementação da IA conversacional na educação numa perspetiva dialógica.

4. Desafios e Limitações da IA Dialógica na Educação

A implementação da Inteligência Artificial numa perspetiva dialógica na educação enfrenta desafios significativos que vão muito além das questões técnicas. Esta secção examina criticamente as limitações identificadas na literatura, organizando-as em categorias que refletem a complexidade multidimensional destes desafios.

4.1 O Fetiche da Tecnologia

Um dos desafios mais fundamentais identificados na literatura é o que Figueira [2] denomina de "fetiche da tecnologia". Este conceito, inspirado na crítica marxista da economia política, refere-se à tendência de atribuir às tecnologias propriedades quase mágicas, obscurecendo as relações sociais e pedagógicas que as sustentam.

4.1.1 Manifestações do Fetiche Tecnológico

O fetiche da tecnologia manifesta-se de várias formas no contexto educacional:

Fascínio Acrítico: Figueira [2] observa "o fascínio desmedido dos alunos com os textos criados por inteligência artificial". Este fascínio pode levar a uma aceitação acrítica das informações fornecidas pela IA, contradizendo os princípios fundamentais da educação dialógica que enfatizam a reflexão crítica e o questionamento.Substituição vs. 

Complementaridade: Existe uma tendência para ver a IA como substituto dos processos educativos humanos, em vez de os complementar. Como alerta Santos [5], é necessário "preservar e aprimorar, não suprimir, a natureza dialógica da educação".

Solucionismo Tecnológico: A crença de que a tecnologia pode resolver automaticamente os problemas educacionais complexos, ignorando as dimensões sociais, culturais e políticas da educação.

4.1.2 Consequências Pedagógicas

O fetiche da tecnologia tem consequências significativas para os processos de ensino e aprendizagem:

Redução da Capacidade Crítica: O uso acrítico da IA pode reduzir a capacidade dos estudantes para questionar, analisar e avaliar informações de forma independente.

Dependência Tecnológica: Como observa Beale [4], "a disponibilidade constante pode criar dependência", limitando a capacidade dos estudantes para funcionar sem suporte tecnológico.

Superficialização da Aprendizagem: A facilidade de obter respostas através da IA pode levar a uma abordagem superficial da aprendizagem, onde os estudantes procuram respostas rápidas em vez de se envolverem em processos profundos de reflexão e construção do conhecimento.

4.2 Despreparo Institucional

Figueira [2] identifica "o despreparo institucional para lidar com esse novo desafio" como um problema central na implementação da IA na educação. Este despreparo manifesta-se em múltiplas dimensões.

4.2.1 Dimensões do Despreparo

Formação Docente Inadequada: A maioria dos professores não recebeu formação adequada para integrar a IA nos seus processos pedagógicos. Wolschick et al. [3] enfatizam "a importância de processos formativos que desenvolvam competências técnicas e éticas".Infraestrutura Tecnológica Insuficiente: Muitas instituições educacionais não possuem a infraestrutura tecnológica necessária para implementar sistemas de IA de forma efetiva e equitativa.

Políticas Educacionais Desatualizadas: As políticas educacionais existentes frequentemente não abordam as questões específicas levantadas pela integração da IA na educação.

Resistência à Mudança: Existe frequentemente resistência institucional à mudança, particularmente quando esta envolve tecnologias complexas e potencialmente disruptivas.

4.2.2 Impactos do Despreparo

O despreparo institucional tem impactos significativos na qualidade da implementação da IA na educação:Implementação Superficial: Sem preparação adequada, as instituições podem implementar tecnologias de IA de forma superficial, sem considerar as suas implicações pedagógicas mais profundas

Desigualdades Ampliadas: O despreparo pode amplificar desigualdades existentes, beneficiando apenas aqueles que já têm acesso a recursos e conhecimentos tecnológicos.

Perda de Oportunidades: A falta de preparação pode resultar na perda de oportunidades significativas para melhorar os processos educativos através da IA.

4.3 Limitações Técnicas e Pedagógicas dos LLMsBeale [4] identifica várias limitações específicas dos Modelos de Linguagem Grande que têm implicações importantes para a sua utilização numa perspetiva dialógica.

4.3.1 Tendência para Respostas Diretas

Uma das limitações mais significativas identificadas é que "os modelos tendem a fornecer respostas diretas em vez de fomentar a co-construção do conhecimento" [4]. Esta tendência contradiz diretamente os princípios da educação dialógica, que enfatiza a importância da construção colaborativa do conhecimento através do diálogo.

Implicações Pedagógicas: Esta tendência pode:

Reduzir o envolvimento ativo dos estudantes no processo de aprendizagem.

Limitar o desenvolvimento de competências de pensamento crítico.

Desencorajar a exploração e a descoberta independente•l.

Criar uma relação passiva com o conhecimento.

Necessidade de Redesign: Superar esta limitação requer um redesign fundamental dos sistemas, focando em estratégias que promovam o questionamento e a reflexão em vez da transmissão direta de informação.

4.3.2 Falta de Transparência

Os LLMs são frequentemente descritos como "caixas negras" cujos processos de raciocínio não são transparentes. Esta falta de transparência levanta questões importantes numa perspetiva dialógica:

Impossibilidade de Questionamento: Se os estudantes não podem compreender como a IA chegou a uma determinada resposta, torna-se difícil questionar ou avaliar criticamente essa resposta.

Limitações na Metacognição: A falta de transparência limita as oportunidades para os estudantes refletirem sobre os processos de pensamento e raciocínio.

Questões de Confiança: A opacidade dos sistemas pode levar tanto a confiança excessiva quanto a desconfiança injustificada.

4.3.3 Questões de Veracidade e Viés

Os LLMs podem gerar informações incorretas ou enviesadas, o que levanta questões importantes para a educação:

Alucinações: Os LLMs podem gerar informações que parecem plausíveis mas são factualmente incorretas.

Vieses Algorítmicos: Os sistemas podem reproduzir e amplificar vieses presentes nos dados de treino.

Falta de Atualização: As informações dos LLMs podem estar desatualizadas, particularmente em áreas de conhecimento que evoluem rapidamente.

4.4 Questões Éticas e Sociais

A implementação da IA na educação levanta questões éticas e sociais complexas que requerem consideração cuidadosa numa perspetiva dialógica.

4.4.1 Privacidade e Proteção de Dados

A utilização de sistemas de IA na educação envolve frequentemente a recolha e análise de grandes quantidades de dados sobre os estudantes. Isto levanta questões importantes sobre privacidade e proteção de dados:

Dados Sensíveis: Os sistemas de IA educacional podem recolher informações sensíveis sobre as capacidades, dificuldades e características pessoais dos estudantes.

Consentimento Informado: É frequentemente difícil obter consentimento verdadeiramente informado, particularmente de estudantes menores de idade.

Uso Secundário de Dados: Existe o risco de que os dados recolhidos para fins educacionais sejam utilizados para outros propósitos

4.4.2 Equidade e Acesso

A implementação da IA na educação pode amplificar desigualdades existentes se não for cuidadosamente planeada:

Divisão Digital: Estudantes sem acesso a tecnologias avançadas podem ficar em desvantagem.

Vieses Algorítmicos: Os sistemas de IA podem reproduzir e amplificar vieses sociais existentes.

Recursos Desiguais: Instituições com mais recursos podem implementar sistemas mais avançados, criando desigualdades entre escolas.

4.4.3 Autonomia e Agência

A utilização extensiva de IA na educação pode afetar a autonomia e agência dos estudantes:Dependência Tecnológica: O uso excessivo de IA pode reduzir a capacidade dos estudantes para funcionar independentemente.

Perda de Agência: Os sistemas automatizados podem reduzir as oportunidades para os estudantes tomarem decisões sobre a sua própria aprendizagem.

Homogeneização: A padronização algorítmica pode reduzir a diversidade de abordagens e perspetivas na educação.

4.5 Desafios Metodológicos

A implementação da IA numa perspetiva dialógica enfrenta também desafios metodológicos significativos.

4.5.1 Avaliação da Eficácia

Avaliar a eficácia da IA dialógica na educação é complexo porque:

Métricas Inadequadas: As métricas tradicionais de avaliação educacional podem não capturar adequadamente os benefícios de uma abordagem dialógica.

Efeitos a Longo Prazo: Os benefícios da educação dialógica podem manifestar-se apenas a longo prazo, tornando difícil a avaliação imediata.

Complexidade dos Processos: Os processos dialógicos são complexos e multidimensionais, dificultando a sua quantificação.

4.5.2 Integração Curricular

A integração efetiva da IA numa perspetiva dialógica requer mudanças significativas nos currículos:

Resistência Curricular: Os currículos existentes podem ser resistentes à integração de novas abordagens pedagógicas.

Formação de Professores: Os professores precisam de formação não apenas sobre a tecnologia, mas também sobre como integrá-la numa perspetiva dialógica.

Avaliação Autêntica: É necessário desenvolver formas de avaliação que sejam consistentes com os princípios da educação dialógica.

4.6 Desafios Culturais e Contextuais

A implementação da IA na educação deve considerar também os contextos culturais e sociais específicos.

4.6.1 Diversidade Cultural

Os sistemas de IA são frequentemente desenvolvidos em contextos culturais específicos, o que pode limitar a sua aplicabilidade em outros contextos:
Vieses Culturais: Os sistemas podem refletir os valores e perspetivas das culturas em que foram desenvolvidos.Linguagem e Comunicação: 
Os padrões de comunicação variam entre culturas, o que pode afetar a eficácia dos sistemas conversacionais.
Valores Educacionais: Diferentes culturas têm diferentes valores e abordagens educacionais que podem não ser compatíveis com determinados sistemas de IA.

4.6.2 Contextos Socioeconómicos

A implementação da IA na educação deve considerar as realidades socioeconómicas
Recursos Limitados: Muitas instituições educacionais operam com recursos limitados que podem não permitir a implementação de sistemas avançados de IA.

Prioridades Educacionais: Em contextos onde existem necessidades educacionais básicas não satisfeitas, a IA pode não ser uma prioridade.

Sustentabilidade: É necessário considerar a sustentabilidade a longo prazo da implementação de sistemas de IA.

4.7 Síntese dos Desafios

A análise dos desafios e limitações revela a complexidade da implementação da IA numa perspetiva dialógica na educação. Vários temas transversais emergem desta análise:

Necessidade de Abordagem Holística: 
Os desafios são interconectados e requerem uma abordagem holística que considere dimensões técnicas, pedagógicas, éticas e sociais.

Importância da Formação: A formação adequada de professores e outros profissionais da educação é fundamental para superar muitos dos desafios identificados.

Necessidade de Políticas Adequadas: É essencial desenvolver políticas educacionais que abordem especificamente as questões levantadas pela IA na educação.

Centralidade dos Valores Humanísticos: Como enfatiza Santos [5], é crucial "preservar e aprimorar, não suprimir, a natureza dialógica da educação".A próxima secção examinará as estratégias e soluções propostas na literatura para superar estes desafios e implementar efetivamente a IA numa perspetiva dialógica na educação.

5. Estratégias e Soluções para uma IA Dialógica Efetiva

Face aos desafios identificados na secção anterior, a literatura propõe diversas estratégias e soluções para implementar efetivamente a Inteligência Artificial numa perspetiva dialógica na educação. Esta secção examina estas propostas, organizando-as em categorias que refletem diferentes níveis de intervenção: desde o design técnico dos sistemas até às políticas educacionais mais amplas.

5.1 Estratégias de Design Centrado na Aprendizagem

A superação das limitações técnicas e pedagógicas dos sistemas de IA requer uma abordagem de design que coloque a aprendizagem dialógica no centro do processo de desenvolvimento.

5.1.1 Prompts Socráticos e Questionamento EstratégicoBeale [4] propõe o desenvolvimento de "prompts que encorajem questionamento socrático" como uma estratégia fundamental para alinhar os LLMs com os princípios da educação dialógica. Esta abordagem envolve:

Design de Prompts Reflexivos: Em vez de simplesmente fornecer informações, os sistemas devem ser programados para fazer perguntas que promovam a reflexão. Por exemplo, em vez de responder diretamente "A fotossíntese é o processo pelo qual as plantas convertem luz solar em energia", um sistema socrático poderia perguntar: "O que achas que aconteceria às plantas se não houvesse luz solar? Como podes relacionar isso com o que observas na natureza?"

Sequências de Questionamento: Os sistemas podem ser concebidos para seguir sequências estruturadas de questionamento que levem os estudantes através de processos de descoberta guiada. Estas sequências devem ser adaptáveis ao nível de conhecimento e às respostas específicas de cada estudante.

Metacognição Promovida: Os prompts devem incluir questões metacognitivas que ajudem os estudantes a refletir sobre os seus próprios processos de pensamento: "Como chegaste a essa conclusão?" ou "Que estratégia utilizaste para resolver este problema?"

5.1.2 Sistemas de Scaffolding AdaptativosBeale [4] identifica "sistemas de scaffolding adaptativos" como essenciais para o alinhamento da IA com teorias comprovadas de aprendizagem. Estes sistemas devem:

Fornecer Suporte Graduado: O suporte deve ser fornecido em níveis que se ajustem às necessidades específicas de cada estudante, desde dicas subtis até orientação mais direta, sempre com o objetivo de promover a independência progressiva.

Reconhecer Padrões de Dificuldade: Os sistemas devem ser capazes de identificar quando os estudantes estão a enfrentar dificuldades específicas e ajustar o tipo e intensidade do suporte em conformidade.

Promover Autorregulação: O scaffolding deve incluir estratégias que ajudem os estudantes a desenvolver competências de autorregulação da aprendizagem, reduzindo gradualmente a dependência do sistema.

5.1.3 Integração de RAG (Retrieval-Augmented Generation)Beale [4] propõe a "integração de mecanismos de RAG para garantir precisão e relevância contextual" como uma estratégia para superar as limitações de veracidade dos LLMs. Esta abordagem envolve:

Acesso a Bases de Conhecimento Verificadas: Os sistemas devem ter acesso a bases de conhecimento curadas e verificadas, reduzindo o risco de informações incorretas.

Transparência nas Fontes: Quando os sistemas fornecem informações, devem indicar claramente as fontes utilizadas, permitindo aos estudantes verificar e aprofundar o seu conhecimento.

Atualização Contínua: As bases de conhecimento devem ser regularmente atualizadas para garantir que as informações permanecem corretas e relevantes.

5.2 Formação e Desenvolvimento Profissional

A formação adequada de professores e outros profissionais da educação é identificada como fundamental para o sucesso da implementação da IA dialógica na educação.

5.2.1 Competências Técnicas e PedagógicasWolschick et al. [3] enfatizam "a importância de processos formativos que desenvolvam competências técnicas e éticas". Estes processos devem incluir:

Literacia em IA: Os professores precisam de compreender os fundamentos da IA, incluindo as suas capacidades e limitações. Isto não significa que devem tornar-se programadores, mas devem ter conhecimento suficiente para utilizar estas tecnologias de forma crítica e efetiva.Integração Pedagógica: A formação deve focar não apenas na tecnologia, mas na sua integração com metodologias pedagógicas sólidas. Os professores devem aprender como utilizar a IA para promover os objetivos educacionais, não simplesmente como uma ferramenta adicional.

Pensamento Crítico sobre Tecnologia: Os professores devem desenvolver competências para avaliar criticamente as tecnologias educacionais, compreendendo as suas implicações sociais, éticas e pedagógicas.

5.2.2 Modelos de Formação Continuada

A literatura sugere vários modelos efetivos para a formação continuada de professores em IA educacional:

Comunidades de Prática: A criação de comunidades de professores que experimentam e partilham experiências com IA pode ser particularmente efetiva. Estas comunidades permitem aprendizagem colaborativa e suporte mútuo

.Investigação-Ação: Os professores podem ser envolvidos em projetos de investigação-ação onde experimentam com IA nas suas próprias salas de aula, refletindo criticamente sobre os resultados.

Mentoria e Coaching: Programas de mentoria onde professores mais experientes em IA apoiam colegas menos experientes podem facilitar a transferência de conhecimento e competências.

5.2.3 Desenvolvimento de Competências Éticas

Santos [5] enfatiza a necessidade de "preservar e aprimorar, não suprimir, a natureza dialógica da educação". Isto requer o desenvolvimento de competências éticas específicas:

Reflexão Ética: Os professores devem ser capazes de refletir sobre as implicações éticas das suas decisões relacionadas com o uso de IA na educação.

Advocacia dos Estudantes: Os professores devem desenvolver competências para defender os interesses dos seus estudantes face às pressões tecnológicas e comerciais.

Promoção da Equidade: A formação deve incluir estratégias para utilizar a IA de forma a promover, não prejudicar, a equidade educacional.

5.3 Políticas Educacionais e Regulamentação

A implementação efetiva da IA dialógica na educação requer políticas educacionais adequadas que abordem as questões específicas levantadas por estas tecnologias.

5.3.1 Diretrizes Éticas

É essencial desenvolver diretrizes éticas claras para o uso de IA na educação:

Princípios Fundamentais: As diretrizes devem estabelecer princípios fundamentais como transparência, equidade, privacidade e beneficência que devem orientar todas as aplicações de IA na educação.

Procedimentos de Avaliação: Devem ser estabelecidos procedimentos para avaliar os sistemas de IA antes da sua implementação, garantindo que cumprem os padrões éticos estabelecidos.

Mecanismos de Supervisão: É necessário criar mecanismos de supervisão contínua para garantir que os sistemas de IA continuam a operar de acordo com os princípios éticos estabelecidos.

5.3.2 Políticas de Equidade e Acesso

Wolschick et al. [3] enfatizam a necessidade de "políticas educacionais que ampliem o acesso e a utilização crítica das tecnologias digitais". Estas políticas devem incluir:

Acesso Universal: Garantir que todos os estudantes tenham acesso às tecnologias de IA educacional, independentemente da sua situação socioeconómica.

Suporte Técnico: Fornecer suporte técnico adequado para garantir que as tecnologias funcionem efetivamente em todos os contextos.

Formação Inclusiva: Garantir que a formação em IA seja acessível a todos os professores, incluindo aqueles em contextos com recursos limitados.

5.3.3 Regulamentação da Privacidade

É necessário desenvolver regulamentação específica para proteger a privacidade dos estudantes no contexto da IA educacional:

Consentimento Informado: Estabelecer procedimentos claros para obter consentimento informado para a recolha e uso de dados educacionais.

Minimização de Dados: Garantir que apenas os dados necessários são recolhidos e que são utilizados apenas para os fins educacionais especificados.

Segurança de Dados: Estabelecer padrões rigorosos de segurança para proteger os dados educacionais contra acesso não autorizado.

5.4 Estratégias Institucionais

As instituições educacionais devem desenvolver estratégias específicas para implementar efetivamente a IA dialógica.

5.4.1 Liderança e Visão

A implementação bem-sucedida da IA dialógica requer liderança forte e uma visão clara:Visão Pedagógica: As instituições devem desenvolver uma visão clara de como a IA se alinha com os seus objetivos educacionais e valores pedagógicos.

Liderança Distribuída: A liderança na implementação da IA deve ser distribuída, envolvendo professores, administradores e outros stakeholders.

Cultura de Inovação: As instituições devem cultivar uma cultura que encoraje a experimentação responsável com novas tecnologias.

5.4.2 Infraestrutura e Recursos

A implementação efetiva da IA requer investimento adequado em infraestrutura e recursos:Infraestrutura Tecnológica: 

As instituições devem investir na infraestrutura tecnológica necessária para suportar sistemas de IA avançados.

Recursos Humanos: É necessário investir em recursos humanos, incluindo especialistas em IA educacional e suporte técnico.

Recursos Financeiros: A implementação da IA requer investimento financeiro sustentado, não apenas para a aquisição inicial, mas também para manutenção e atualização contínuas.

5.4.3 Avaliação e Melhoria Contínua

As instituições devem estabelecer sistemas de avaliação e melhoria contínua:Métricas Apropriadas: Desenvolver métricas que capturem não apenas os resultados de aprendizagem tradicionais, mas também os benefícios específicos da abordagem dialógica.

Feedback dos Stakeholders: Recolher regularmente feedback de estudantes, professores e outros stakeholders sobre a efetividade dos sistemas de IA.

Ciclos de Melhoria: Estabelecer ciclos regulares de avaliação e melhoria que permitam ajustes contínuos nos sistemas e práticas.

5.5 Estratégias de Implementação Gradual

A literatura sugere que a implementação da IA dialógica deve ser gradual e cuidadosamente planeada.

5.5.1 Projetos Piloto

Começar com projetos piloto permite testar e refinar abordagens antes da implementação em larga escala:

Seleção Cuidadosa: Os projetos piloto devem ser cuidadosamente selecionados para representar diferentes contextos e desafios.

Avaliação Rigorosa: Os pilotos devem incluir avaliação rigorosa que informe decisões sobre expansão.

Aprendizagem Organizacional: Os pilotos devem ser concebidos como oportunidades de aprendizagem organizacional, não apenas como testes de tecnologia.

5.5.2 Expansão Progressiva

A expansão deve ser progressiva e baseada em evidências:Critérios de Sucesso: Estabelecer critérios claros de sucesso que devem ser cumpridos antes da expansão.

Suporte Adequado: Garantir que existe suporte adequado (técnico, pedagógico e administrativo) antes de expandir.

Flexibilidade: Manter flexibilidade para ajustar abordagens com base na experiência e feedback.

5.6 Colaboração e Parcerias

A implementação efetiva da IA dialógica beneficia de colaboração e parcerias estratégicas.

5.6.1 Parcerias Académicas

Colaborar com instituições de investigação pode fornecer expertise e recursos valiosos:

Investigação Colaborativa: Desenvolver projetos de investigação colaborativa que informem a prática.

Partilha de Recursos: Partilhar recursos e expertise entre instituições.

Desenvolvimento Conjunto: Colaborar no desenvolvimento de soluções específicas para contextos educacionais.

5.6.2 Parcerias com a Indústria

Parcerias cuidadosamente estruturadas com empresas de tecnologia podem ser benéficas:

Desenvolvimento Responsável: Trabalhar com empresas para desenvolver tecnologias que sejam pedagogicamente sólidas.

Transparência: Exigir transparência nos algoritmos e processos utilizados.

Controlo Educacional: Manter o controlo educacional sobre como as tecnologias são utilizadas.

5.7 Síntese das Estratégias

A análise das estratégias e soluções propostas revela vários temas importantes:

Abordagem Holística: As soluções mais efetivas são holísticas, abordando simultaneamente questões técnicas, pedagógicas, éticas e organizacionais.

Centralidade da Formação: A formação adequada de professores e outros profissionais emerge como fundamental para o sucesso.

Necessidade de Políticas: Políticas educacionais adequadas são essenciais para criar o contexto necessário para implementação efetiva.

Implementação Gradual: A implementação deve ser gradual e baseada em evidências, permitindo aprendizagem e ajuste contínuos.

Preservação de Valores: Como enfatiza Santos [5], é crucial "preservar e aprimorar, não suprimir, a natureza dialógica da educação".A próxima secção apresentará as conclusões desta síntese e as recomendações para investigação e prática futuras.

6. Conclusões e Recomendações

Esta síntese crítica da literatura sobre Inteligência Artificial aplicada à educação, com ênfase na perspetiva dialógica da aprendizagem, revela um campo de investigação e prática em rápida evolução, caracterizado tanto por potencialidades significativas quanto por desafios complexos. As conclusões apresentadas nesta secção organizam-se em torno dos principais achados da investigação e das suas implicações para a teoria, prática e política educacional.

6.1 Principais Achados

6.1.1 Convergência Teórica e Necessidade de Adaptação

Um dos achados mais significativos desta síntese é a demonstração de que as teorias clássicas de aprendizagem mantêm relevância fundamental para a era da IA educacional. A pedagogia dialógica de Paulo Freire, as teorias socioculturais de Vygotsky e o método socrático continuam a oferecer orientação valiosa para o design e implementação de sistemas de IA educacional.Contudo, como observa Beale [4], existe uma "lacuna entre teoria educacional e a prática emergente de aprendizagem conversacional impulsionada por IA". Esta lacuna manifesta-se particularmente na tendência dos sistemas atuais para "fornecer respostas diretas em vez de fomentar a co-construção do conhecimento" [4], contradizendo princípios fundamentais da educação dialógica.A convergência teórica sugere que a IA educacional não deve ser vista como uma rutura com as tradições pedagógicas estabelecidas, mas como uma oportunidade para amplificar e enriquecer abordagens educativas humanísticas. Como enfatiza Santos [5], o objetivo deve ser "preservar e aprimorar, não suprimir, a natureza dialógica da educação".

6.1.2 Potencialidades Transformadoras da Personalização

A análise revela que a IA oferece potencialidades sem precedentes para a personalização da educação. Wolschick et al. [3] observam que "a inteligência artificial, quando articulada a metodologias centradas no estudante e à qualificação docente, favorece a personalização do ensino, o envolvimento dos aprendizes e o fornecimento de retorno em tempo real".Esta personalização pode manifestar-se de várias formas:

Adaptação ao Ritmo Individual: Os sistemas podem ajustar-se ao ritmo de aprendizagem específico de cada estudante.

Suporte Diferenciado: Diferentes tipos de suporte podem ser fornecidos com base nas necessidades individuais.

Caminhos de Aprendizagem Flexíveis: Os estudantes podem seguir caminhos de aprendizagem que se alinhem com os seus interesses e objetivos.Contudo, esta personalização deve ser cuidadosamente concebida para promover, não substituir, a interação dialógica. A personalização efetiva numa perspetiva dialógica não significa isolamento individual, mas adaptação que facilita a participação significativa em comunidades de aprendizagem.

6.1.3 Desafios Críticos do Fetiche Tecnológico

A investigação de Figueira [2] sobre o "fetiche da inteligência artificial" revela um desafio fundamental que vai além das questões técnicas. O "fascínio desmedido dos alunos com os textos criados por inteligência artificial" [2] representa um risco significativo para o desenvolvimento do pensamento crítico e da autonomia intelectual.Este fetiche manifesta-se em várias dimensões:

Aceitação Acrítica: Tendência para aceitar informações da IA sem questionamento.

Dependência Tecnológica: Redução da capacidade para funcionar sem suporte de IA.

Superficialização: Preferência por respostas rápidas em vez de processos profundos de reflexão.A superação deste desafio requer não apenas mudanças técnicas nos sistemas, mas também transformações pedagógicas que promovam uma relação crítica e reflexiva com a tecnologia.

6.1.4 Centralidade da Formação Docente

Todos os estudos analisados convergem na identificação da formação docente como elemento central para o sucesso da implementação da IA dialógica na educação. Wolschick et al. [3] enfatizam "a importância de processos formativos que desenvolvam competências técnicas e éticas".Esta formação deve ser multidimensional, incluindo:

Competências Técnicas: Compreensão das capacidades e limitações da IA.

Competências Pedagógicas: Integração da IA com metodologias educativas sólidas.

Competências Éticas: Reflexão crítica sobre as implicações sociais e morais da IA.

Competências Reflexivas: Capacidade para avaliar e ajustar continuamente as práticas.

6.1.5 Necessidade de Abordagem SistémicaA análise revela que a implementação efetiva da IA dialógica na educação requer uma abordagem sistémica que considere simultaneamente múltiplas dimensões: técnica, pedagógica, ética, social e política. Como observa Wolschick et al. [3], "a integração efetiva da IA requer uma relação dialógica entre tecnologia e pedagogia, com atenção à diversidade e à equidade".Esta abordagem sistémica implica:

Coordenação entre Níveis: Alinhamento entre políticas nacionais, estratégias institucionais e práticas de sala de aula.•Colaboração Interdisciplinar: Envolvimento de educadores, tecnólogos, investigadores e decisores políticos.

Consideração Contextual: Atenção às especificidades culturais, sociais e económicas de cada contexto.

6.2 Implicações Teóricas

6.2.1 Expansão da Teoria Dialógica

Esta síntese sugere a necessidade de expandir a teoria dialógica para incorporar as realidades da mediação tecnológica. Embora os princípios fundamentais da pedagogia dialógica permaneçam válidos, a sua aplicação em contextos de IA requer desenvolvimento teórico adicional.Áreas específicas que requerem desenvolvimento teórico incluem:

Diálogo Humano-IA: Compreensão das dinâmicas específicas do diálogo entre humanos e sistemas de IA.

Mediação Tecnológica: Análise de como a tecnologia medeia os processos dialógicos

Agência Distribuída: Exploração de como a agência é distribuída entre humanos e sistemas de IA.

6.2.2 Reconceptualização da Zona de Desenvolvimento Proximal

A aplicação da IA educacional sugere a necessidade de reconceptualizar a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) de Vygotsky. Enquanto o conceito original focava na mediação humana, a IA introduz novas formas de mediação que requerem análise teórica.Questões específicas incluem:•ZDP Tecnologicamente Mediada: Como a IA pode atuar como mediador na ZDP?

Scaffolding Algorítmico: Que características deve ter o scaffolding fornecido por sistemas de IA?

Transição para Autonomia: Como garantir que a mediação tecnológica promove, não impede, o desenvolvimento da autonomia?

6.2.3 Ética da IA Educacional

A síntese revela a necessidade de desenvolver frameworks éticos específicos para a IA educacional que vão além dos princípios gerais da ética da IA. Estes frameworks devem considerar as especificidades dos contextos educacionais e os valores da educação dialógica.

6.3 Implicações Práticas

6.3.1 Design de Sistemas

As implicações práticas mais imediatas relacionam-se com o design de sistemas de IA educacional. Os achados sugerem que os sistemas devem ser concebidos com os seguintes princípios:

Promoção do Questionamento: Os sistemas devem ser programados para fazer perguntas que promovam a reflexão, em vez de simplesmente fornecer respostas.

Transparência: Os processos de raciocínio dos sistemas devem ser transparentes e explicáveis.

Adaptabilidade: Os sistemas devem adaptar-se não apenas ao nível de conhecimento, mas também aos estilos de comunicação e preferências dos estudantes.Suporte à Colaboração:

 Os sistemas devem facilitar, não substituir, a colaboração entre estudantes.

6.3.2 Práticas Pedagógicas

A implementação da IA dialógica requer mudanças significativas nas práticas pedagógicas:

Papel do Professor: O papel do professor evolui de transmissor de informação para facilitador de diálogos e mediador de processos de aprendizagem.

Estratégias de Ensino: As estratégias de ensino devem integrar a IA de forma que amplifique, não substitua, a interação humana.

Avaliação: As práticas de avaliação devem evoluir para capturar os benefícios específicos da abordagem dialógica.

6.3.3 Desenvolvimento Profissional

A formação de professores deve ser reconceptualizada para incluir competências específicas para a era da IA:

Literacia em IA: Compreensão básica das capacidades e limitações da IA.

Pedagogia Digital: Competências para integrar tecnologias digitais de forma pedagogicamente sólida.

Pensamento Crítico Tecnológico: Capacidade para avaliar criticamente as tecnologias educacionais.

6.4 Implicações Políticas

6.4.1 Políticas Educacionais

A síntese revela a necessidade urgente de políticas educacionais que abordem especificamente a IA na educação:Diretrizes Éticas: Desenvolvimento de diretrizes éticas claras para o uso de IA na educação.
Padrões de Qualidade: Estabelecimento de padrões de qualidade para sistemas de IA educacional.

Equidade e Acesso: Políticas que garantam acesso equitativo às tecnologias de IA educacional.

6.4.2 Regulamentação

É necessário desenvolver regulamentação específica que proteja os direitos dos estudantes enquanto permite inovação:

Privacidade de Dados: Regulamentação rigorosa sobre a recolha e uso de dados educacionais.

Transparência Algorítmica: Requisitos de transparência para algoritmos utilizados na educação.

Responsabilidade: Mecanismos claros de responsabilidade para decisões tomadas por sistemas de IA.

6.5 Recomendações para Investigação Futura

Com base nos achados desta síntese, várias áreas prioritárias para investigação futura podem ser identificadas:

6.5.1 Investigação Empírica

Estudos Longitudinais: São necessários estudos longitudinais que examinem os efeitos a longo prazo da IA dialógica na aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes.

Investigação Comparativa: Estudos que comparem diferentes abordagens para a implementação da IA dialógica em diversos contextos.

Análise de Eficácia: Investigação rigorosa sobre a eficácia de diferentes estratégias de implementação.

6.5.2 Desenvolvimento TeóricoTeoria da Mediação Tecnológica: 

Desenvolvimento de teoria específica sobre como a tecnologia medeia os processos dialógicos.Ética da IA Educacional: 

Desenvolvimento de frameworks éticos específicos para a IA educacional.

Pedagogia Digital Crítica: Expansão da teoria da pedagogia crítica para incorporar as realidades digitais.

6.5.3 Investigação Aplicada

Design de Sistemas: Investigação sobre metodologias de design para sistemas de IA educacional dialógica.

Formação de Professores: Estudos sobre modelos efetivos de formação de professores para a era da IA.

Implementação Organizacional: Investigação sobre estratégias efetivas de implementação organizacional.

6.6 Limitações desta Síntese

É importante reconhecer as limitações desta síntese:
Âmbito Temporal: A rápida evolução da IA significa que alguns achados podem tornar-se rapidamente desatualizados.
Viés Linguístico: A síntese focou principalmente em literatura em português e inglês, podendo ter perdido contribuições importantes noutras línguas.
Disponibilidade de Dados: A novidade do campo significa que existem dados limitados sobre efeitos a longo prazo.

6.7 Reflexões Finais

A integração da Inteligência Artificial na educação numa perspetiva dialógica representa tanto uma oportunidade extraordinária quanto um desafio complexo. Como observa Pinto e Santo [1], vivemos num momento de "urgência da contemporaneidade" que exige respostas cuidadosas e reflexivas.A síntese revela que o sucesso desta integração depende não apenas de avanços tecnológicos, mas fundamentalmente da nossa capacidade de manter os valores humanísticos no centro dos processos educativos. Como enfatiza Figueira [2], é essencial resistir ao "fetiche da tecnologia" e manter uma abordagem crítica e reflexiva.A perspetiva dialógica oferece um quadro valioso para esta integração, enfatizando a importância do diálogo, da reflexão crítica e da construção colaborativa do conhecimento. Contudo, a aplicação desta perspetiva em contextos de IA requer desenvolvimento teórico e prático contínuo.O futuro da IA na educação não está predeterminado. Depende das escolhas que fazemos hoje sobre como conceber, implementar e regular estas tecnologias. Como educadores, investigadores e decisores políticos, temos a responsabilidade de garantir que estas escolhas sejam orientadas por valores humanísticos e compromissos com a equidade, justiça e dignidade humana.A educação dialógica, com a sua ênfase na humanização e na transformação social, oferece uma bússola valiosa para navegar estas escolhas. Ao manter o diálogo no centro dos nossos esforços, podemos trabalhar para criar um futuro onde a IA amplifique, em vez de diminuir, a nossa humanidade partilhada.

Nota sobre Transparência: Esta síntese foi elaborada com o apoio de ferramentas de IA, seguindo os princípios de transparência e reflexão crítica que defende. O processo de investigação, análise e escrita foi conduzido de forma a exemplificar uma abordagem dialógica e crítica ao uso da IA na produção de conhecimento.

Referências

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Nota sobre as Referências: Todas as referências incluem links funcionais para as fontes originais. As referências seguem rigorosamente o formato APA 7ª edição. As fontes foram selecionadas com base na sua relevância para o tema da IA dialógica na educação, qualidade académica e atualidade. A numeração das referências corresponde às citações utilizadas ao longo do texto da síntese.
JPBrazão
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